Ambientalistas e entidades conservacionistas unem-se para criar brigada anti-incêndio no Alto Pantanal

Iniciativa nasce da vontade de apoiar no combate às chamas no corredor entre a Serra do Amolar, o Parque Nacional do Pantanal e o Parque Estadual Encontro das Águas – MT

Ambientalistas e entidades conservacionistas unem-se para criar brigada anti-incêndio no Alto Pantanal
Crédito: Mayke Toscano - Secom - MT

O Pantanal, maior planície alagável do planeta, Patrimônio Natural da Humanidade conforme reconhecimento da Unesco e Reserva da Biosfera, arde em chamas como jamais visto. Imagens de satélite mostram que, em setembro de 2020, mais de 2.200.000 hectares, soma equivalente a 13% de todo o bioma, foram incinerados neste ano e o cenário vem piorando a cada dia. “O fogo e a fumaça asfixiam a natureza e toda a economia do Pantanal. Sofrem o turismo, a pecuária, a pesca e as cidades e, por consequência, toda a população, como ribeirinhos, indígenas e produtores, além dos animais silvestres e o gado”, afirma o documentarista Lawrence Wahba, um dos idealizadores de uma campanha, via crowdfunding, para a criação da Brigada Haroldo Palo Jr., que irá atuar em defesa da biodiversidade desta região do Pantanal nos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Segundo Angelo Rabelo, diretor de Relações Institucionais do Instituto Homem Pantaneiro (IHP) e coordenador deste projeto, a ideia de criar a brigada surgiu para apoiar o Estado, uma vez que a contratação de brigadistas pelo IBAMA e ICMBio ocorre de forma sazonal, entre julho e dezembro, e não consegue ter homens suficientes para atuar nas regiões mais remotas e menos habitadas do Pantanal. “Neste ano, os incêndios começaram em fevereiro. Então, contratamos brigadistas que já tinham experiência, pagando diárias para eles, até que, em julho, o Ibama contratou novas equipes. Assim, nossa proposta é preencher essas lacunas nas quais os brigadistas não estão mobilizados e, ao mesmo tempo, cumprir um papel de prevenção em locais que são de interesse estratégico para conservação, sobretudo em áreas públicas e distantes das cidades”, diz.

Complementarmente, Wahba afirma que, após o início dos incêndios, a situação no Pantanal se degradou ainda mais. “Nesse sentido, eu e Rabelo começamos a pensar o que poderia ser feito para controlar, já que os focos de fogo tomaram rapidamente uma proporção muito grande, justamente porque ninguém oscombatelogo no início. Seguindo a própria estratégia do Prevfogo que vem capacitando brigadas de funcionários de fazendas, ribeirinhos e indígenas, se tivermos dezenas ou centenas de brigadas espalhadas por todo o Pantanal teremos mais chances de atuar no combate desde o princípio, evitando que o fogo atinja a dimensão infernal que atingiu nesse ano”.

Diante da catástrofe ambiental que afeta o Pantanal, representantes da sociedade civil, ONGs, empresas e associações cansaram de apontar problemas e decidiram apresentar soluções. A ideia da brigada não é só combater o fogo, mas, também, inspirar fazendeiros e outros setores da sociedade a replicar a ação.

Segundo Rabelo, uma brigada profissional com homens treinados, equipados e remunerados irá patrulhar as regiões da Serra do Amolar, o Parque Nacional do Pantanal e o Parque Estadual Encontro das Águas, áreas consideradas de extrema relevância para a conservação da onça-pintada e demais espécies, servindo de atrativo para o ecoturismo e fonte de receita para a economia do Pantanal. Nesse sentido, ele lembra que desde março o IHP está mobilizando brigadas temporárias de combate ao fogo com recursos doados, mas os focos são maiores que as equipes disponíveis e eles se espalham rapidamente. “O tempo de treinamento e contratação necessários pode causar prejuízos incalculáveis. Somente com equipes fixas treinadas e equipadas as tristes cenas com macacos, jaguatiricas e onças carbonizadas deixarão de ser rotineiras nos telejornais”, afirma.

Sobre os cuidados para se preservar a fauna pantaneira, Wahba antecipa que, além de atrair recursos para a criação da Brigada Alto Pantanal, 10% do que for obtido pela campanha serão destinados à construção de um ambulatório veterinário na Serra do Amolar e outros 10%, para a ampliação do ambulatório da ONG Ampara Silvestre que já presta primeiros socorros a animais vítimas das queimadas na região da Transpantaneira/Porto Jofre.

Igualmente sensibilizada e parceira neste projeto, a iniciativa Documenta Pantanal, que reúne artistas e encampa produções culturais e apoia diversas campanhas em prol da região, endossa a relevância da ação por considerar de fundamental importância o investimento na formação e na capacitação de brigadistas e a mobilização imediata da sociedade para a urgência em conhecer e preservar esse ecossistema.

O nome escolhido para batizar a brigada prestará uma homenagem ao naturalista e documentarista de natureza Haroldo Palo Jr.(1953-2017). Apaixonado tanto pela biodiversidade quanto pelo povo da região, ele foi responsável por divulgar as belezas do Pantanal ao mundo, inclusive nos anos 80, quando guiou uma equipe do documentarista Jacques Cousteau (1910-1997). “Haroldo inspirou nove entre dez fotógrafos e documentaristas de natureza do Brasil. Foi um mestre generoso e quem me apresentou ao coronel Rabelo e a jornalista Cláudia Gaigher, que nos apoiaram desde o começo nessa iniciativa. Sua dedicação à causa conservacionista em geral e ao Pantanal em particular faz com que essa homenagem seja mais do que merecida”, diz Wahba, citando uma frase do homenageado: “Quando preservamos a paisagem, preservamos todas as plantase animais que nela habitam, inclusive nós mesmos”.